A Justiça do Piauí acolheu o recurso do Ministério Público do Estado (MPPI) e determinou a continuidade do processo oriundo das investigações da Operação Carbono Oculto 86, deflagrada em novembro do ano passado. A ação apura um suposto esquema no setor de combustíveis, com indícios de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A decisão reverte o arquivamento de uma das investigações vinculadas à operação, determinado em abril. À época, o Ministério Público criticou a medida e sustentou que ela foi proferida por um magistrado sem competência para atuar no caso, ingressando com recurso para reverter o entendimento.
Um dos pontos centrais da controvérsia envolve o uso de relatórios de inteligência financeira. Recentemente, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, estabeleceu que a requisição desses documentos por órgãos de investigação exige a existência prévia de procedimento formal submetido ao controle judicial.
O MPPI argumentou que não houve irregularidade na condução do inquérito. Segundo o órgão, os relatórios foram solicitados posteriormente, como instrumento complementar, após a identificação de indícios concretos e com o inquérito policial já instaurado, em conformidade com o entendimento fixado no RE 1.537.165/SP.
Com o acolhimento do recurso, a denúncia volta a tramitar no Judiciário. As provas produzidas foram consideradas válidas, o que anula o arquivamento anterior e permite o prosseguimento do processo.
Entenda a Operação Carbono Oculto 86
A Operação Carbono Oculto 86 revelou um esquema que envolve lavagem de dinheiro, fraude fiscal e adulteração de combustíveis, com atuação direta no Piauí.
As investigações apontam a existência de um braço financeiro do PCC infiltrado no setor, com movimentações que ultrapassam R$ 52 bilhões em todo o país — sendo cerca de R$ 300 milhões em empresas sediadas no estado.
De acordo com o inquérito, o grupo utilizava empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs para ocultar a origem ilícita dos recursos. Mais de 70 CNPJs foram identificados, além da emissão de 504 notas fiscais eletrônicas por distribuidoras ligadas à organização criminosa.
O esquema incluía a simulação de operações de compra e venda de combustíveis, com uso de transportadoras fictícias e contratos fraudulentos. Também foi identificada a prática de emissão de notas fiscais sobrepostas, gerando lucro duplo — tanto pela fraude quanto pela lavagem de capital.
Outro ponto destacado é a aquisição de postos de combustíveis, com troca de bandeira comercial sem alteração da gestão real. A investigação também aponta a construção de uma distribuidora de combustíveis adulterados na rodovia que liga Teresina a Altos, que serviria como base regional.
O caso teve como ponto de partida a venda da Rede de Postos HD, com unidades no Piauí, Maranhão e Tocantins. A negociação, realizada em dezembro de 2023, chamou a atenção das autoridades pela criação de uma empresa apenas seis dias antes da compra.